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Renascer

Renascer

Um desabafo de jovem para jovem ou até para uma mãe tão boa como a minha

Alice 🦋, 13.08.20

O relógio já apontava para as 20h30 e aproveitei, por ser a hora que os meus pais costumam jantar, para lhes ligar, assim, conseguia apanha-los aos dois ao mesmo tempo e fazer-lhes companhia naquele momento que desde sempre uniu a família e onde cada um podia partilhar as experiências vividas durante o dia.
A conversa desenrolou-se relativamente bem, o meu pai como de costume animado, o que me enche cada noite o peito de borboletas e a minha mãe, para variar, a lamentar-se.

Em setembro, fará um ano desde que saí do lar dos meus pais, assim como da minha cidade natal. Continua a ser uma experiência única a que estou a viver, o iniciar da autonomia de uma jovem que sempre esteve debaixo da saia da sua mãe, o reiniciar de uma vida que não era a mais feliz onde, de facto, deveria de ser.

Sinto-me uma sortuda pela oportunidade de vir para esta cidade (bem mais calma do que Lisboa, é um facto) e que me enche o coração desde o primeiro dia. 

Contudo, tem sido um período complexo para uma mãe que sempre deu o seu melhor pelos dois filhos e que ao ver que o mais velho continua a aproveitar o conforto da comida da mãe, faça confusão que a mais nova, com uma boa diferença de oito anos, já precise da sua individualidade para sentir a mente sã. 

Bem sei o amor sentido pelos meus pais para comigo, ainda assim, pensei que as lamentações da minha mãe seriam normais de uma mãe que vê o seu pintainho a querer saber mais da vida, mas acreditava que não iriam durar mais do que três meses. A verdade, é que já completo quase um ano desde que tenho de fazer o meu almoço sozinha e as lamentações continuam.

Magoam, é a realidade.

Não são as típicas lamurias que pensamos ouvir: "ainda me lembro do seu primeiro dia na creche e agora já está nas mãos de Deus" ou "como o tempo passa rápido". Ao em vez disto, as mesmas são trocadas por desgosto, tal como "parece que não gostas da mãe, se não estarias aqui comigo" ou "hoje a praia não soube bem porque não estavas lá", ou "ahhh, uma mãe cria os filhos e depois é isto" ou até mesmo "podia ser muito melhor, mas tu não estás cá", à pergunta "como correu o teu dia mãe?". Isto sempre com imensos emojis tristes e a chorar, como se as palavras já não chegassem.

Eu percebo, juro que percebo, mas não é justo. 

Entendo que com o mais velho, já com 27, ainda em casa, não seria de esperar a gaiata que está a completar os 20 já fora do lar, aliás, a duas horas de viagem (pelo caminho mais rápido). Mas então! É de chorar eu querer, ou melhor, precisar de começar a minha vida? Eu não era feliz ali, mesmo com os melhores pais do mundo e com todos os bens necessários, eu não era feliz. Precisava de saborear a minha independência, precisava de renascer e tornar-me na minha melhor versão. E como está a saber bem conhecer-me, oh mãe, como eu precisava disto...

Sei que pode parecer clichê esta afirmação mas tinha tudo para me enfiar por maus caminhos e afundar-me ainda mais. No entanto, estudo, cuido da casa, nem saio à noite (mesmo quando o covid não estava nas nossas vidas) e até acordo às 6h00 para ir caminhar enquanto faço tempo para o mercado abrir. Saborear os tomates do mercado, idênticos aos da horta dos meus pais, é mais uma coisa que deixa o meu coração apertadinho, mas é tão bom ter saudades. 

Ainda assim, magoa fazer para que corra tudo pelo melhor e todas as noites, em todas os telefonemas, ouvir aqueles lamentos em vez de uma palavra de conforto.

Gostava que fosse diferente, isso é certo, é tão importante sentir apoio nesta fase única da vida. No entanto não funciona assim, sei que não é por maldade, sei que me ama mais que tudo e que está a sentir esta minha ausência mais do que nunca, mas magoa. 

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